Terça-feira, Março 06, 2007

memória da dor aguda



é difícil para um paciente acreditar, mas às vezes é o médico que cai doente. isso porque a maior parte dos médicos que conheço não tem quase que nenhuma preocupação com a própria saúde, basta ver a profissão que arrajaram... e mesmo assim muitos fumam, a grande maioria ou é obesa, ou consome muito álcool, ou é sedentária, ou tudo isso junto, fora outras coisas. minha classe geralmente não prega pelo exemplo, o que não afeta a clientela, no fim das contas, como pode acontecer com um dentista, por exemplo. ou você iria a um dentista que lhe cumprimenta com mau hálito e um pedacinho de alface preso nos dentes cariados? mas a um médico doente, qual é o problema? doença não pode atigir a qualquer um?

não vejo exemplo melhor para demonstrar o quanto o pensamento em saúde preventiva está excluído de nossa cultura, e que o fato de possuir conhecimento (como no caso de nós, médicos) pouca influência tem sobre esse comportamento. claro que só falo pelo senso comum, não tenho nenhuma pilha de dados para confirmar o que falo. estou dizendo por assim dizer.

acontece que, de novo, estou sofrendo as dores de um cálculo renal. não comparo essa minha dor com a dor de ninguém, esse um erro imenso que algumas pessoas fazem: dor é fenômeno subjetivo, pessoal e intranferível. "a dor é minha só, não é de mais ninguém!", diz a música com toda razão. só digo que é muito, muito ruim sentir dor, e o fato de também se eu um ser que sente dor, resolvi fazer da minha profissão um jeito de diminuir um pouco a dor dos outros, o que não quer dizer que esteja plenamente habilitado a cuidar das minhas sozinho. isso é uma falha institucional da profissão, prevista no código de ética: não devemos confiar apenas em nós mesmos quando se trata da própria saúde ou da saúde de familiares, pois não conseguimos o "afastamento crítico" que permite a realização de diagnóstico, prognóstico e tratamento da forma mais adequada.

estou, então, paciente: enfrento fila e sala de espera, com revistas de mês ou ano passado, ar condicionado mal regulado, cadeiras desconfortáveis, até encontrar um colega de ar condencendente que opta por um tratamento que não é necessariamente aquele que tinha por perpectiva no início... e qual é minha surpresa quando isso funciona. ser paciente é uma lição de humildade: outros médicos podem fazer tão bem ou melhor que você, é isso que a doença lhe diz, aos berros, no seu ouvido. realizar exames então... nunca os laudos estão prontos enquanto podem ter alguma utilidade, veja só, expeli dois calculos nos últimos dias, estou quase sem dor, e ainda não tenho o laudo de uma tomografia que iria me dizer se os calculos poderiam ser expelidos, ou não.

espero me recuperar logo, voltar a ser só médico, e aprender, se possível, evitar a ironia da condecendência para com meus pacientes.

Sábado, Dezembro 16, 2006

memória de uma infância perdida


o obstetra descobriu as pernas magrinhas da menina e, com um arrepio, fez o toque genital para avaliar se existia alguma possibilidade de parto normal. como esperava, não havia nenhuma, graças a Deus, pois notara, neste ultimo exame, que toda área em torno da vagina e o canal vaginal estavam repletos de uma secreção fétida, vermelhos de irritação e de verrugas de HPV, tudo contra-indicação para um parto normal em qualquer mulher, quanto mais uma pré-pubere, sem seios, sem quadril, de pernas finas e olhar de criança, doze anos, a idade de sua filha unica. solicitou e realizou a cesareana de madrugada, acompanhado por um anestesista que não parava de contar piadas sujas, uma pediatra solícita, mas calada, seus olhos vendo aquela menina mais como uma paciente de seu consultório. retirou a criança, pequeniníssima filha de outra criança, outra mulher para ser enfiada no mundo. mas o útero da menina protestou contra uma gravidez antes de sua maturidade e contra a moderna cirurgia, e retirada a placenta, não cessava de sangrar. massagem, medicametos, toda a habilidade de médico experiente, obstetra de pronto-socorro, nada adiantou, e teve de reverter a cirurgia para uma histerectomia total. fechou aquela fonte de onde brota gente, arrancou totalmente o centro da feminilidade e da reprodutibilidade, castrou sua paciente para salvar-lhe a vida. sentia-se culpado, pois podia ser sua filha, podia ser que Deus quisesse mais dele, que soubesse mais, que fisesse mais, que tivesse mais do que sua fé vacilante e mal-orientada. frustrado, saiu da sala para comunicar à mãe da menina o ocorrido. recebeu um silêncio resignado e timido em resposta. pôde, como em muitos outros dias não pôde, descansar o resto do plantão. pela manhã, revisando o prontuário, viu que faltava entregar um documento a mãe da paciente, que ainda estava na UTI. a mulher, quase sem perder a indiferença, perguntou sem meias palavras: doutor, minha filha ainda vai poder gozar? se não, como há de voltar a trabalhar?o obstetra sentiu seus dentes rangerem, uma queimação em seu estômago, uma revolta, e uma determinação ir logo para casa abraçar sua filha muito apertado, muito tempo.

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

memória do último dia


mais uma vez deixo um porto: esta é a vida de quem navega em exílio vountário. muitas histórias deste porto ainda deverão ser contadas, mas como sempre, poderão ser histórias de qualquer lugar. tudo que for sentimento que disse na despedida anterior vale nesta. mas nesta ainda mais. pela primeira vez direi aqui nomes verdadeiros de pessoas verdadeiras, que permanecerão em meu coração por muitos portos e viagens... ana lúcia, explosiva, sempre dando um jeitinho... que seria de nós e dos pacientes sem seu jeitinho, hein? joão, grande amigo, logo será um grande pai, o que a natureza não te deu em estatura deu em algo muito mais valioso: a ombridade, e poucos se equiparam a ti. renata, querida, tenho que deixar para trás também a alegria de nossas conversas, obrigado por tudo, e creia que nos veremos de novo, mesmo que seja em outro porto. mário, grande colega, grande médico, deixa os pacientes provarem um pouquinho desse espírito de fogo que tu tens, e haverá passeatas impedindo que se vá embora para qualquer lugar. vera, faz tipo a durona, mas esbanja sensibilidade, acredite, garota, só não vê quam não quer, pouca gente tem sua postura. mais uma vez, se alguém gostou deste navegante, ficará órfão apenas de minha presença, mas fico eu órfão de todos vocês. adeus por enquanto.

Quinta-feira, Julho 06, 2006

memória do luto


para que o possamos chamar de algum nome, digamos apenas "ele". o que definia a vida dele era o amor por "ela". ele e ela juntos, eles, amavam-se e viviam bem sua vida de jovem casal. mas é certo também, e de boa fonte, que as famílias davam-se bem, mas sabemos que depois de uma desgraça muito grande todas as pequenas vicissitudes do dia a dia parecem apenas uma nuance um pouco esmaecida de um tempo de paz. ele e ela um dia sairam para ir de um lugar a outro lugar de moto, e esse foi o princípio do fim. ele pode sentir tudo com uma incrível nitidez, desde o momento em que o carro tocou sua perna e o desequilibrou até o momento em que o corpo dela foi esmagado pela roda dianteira do ônibus que vinha em direção contrária, passando por aquele momento que que pela última vez os seus braços tentaram se agarrar a sua cintura. quando ele conseguiu gritar o nome dela, ela não pertencia mais a este lado da vida, e apenas estranhos podiam escutar sua voz clamando por seu nome. o motorista do ônibus, arrepiado com um indizível mal estar, dizia que achava ter passado por cima da roda da moto, só soube do corpo depois de descer do carro. ele não culpou ao motorista, nem do ônibus e nem do carro. culpou apenas a si mesmo, arrojado motociclista, enquanto empapado no próprio sangue e no sangue dela, aninhava aquele rosto morto contra seu peito que não queria mais a vida, tal o choque de seu desespero.
depois foi um longo transe, onde ele não se lembrava de muita coisa, palavras que pretendiam ser de ajuda ou amigas, mas que apenas serviam para fazer seu cérebro repetir amargamente, com mórbidos detalhes, sua última semana, seu último dia, suas últimas palavras, sua última noite, seu último beijo... e o fim. quando deu por si estava em uma grande sala de espera, que lhe diziam ser o instituto médico legal, o que apenas mostrava que seu transe era real. sua mente embotada percebia que lágrimas escorriam pelo seu rosto e soluços que saíam de sua garganta, mas não tinha consciência de estar chorando, ou fazendo qualquer coisa. estava lá apenas, sua mente flutuando em seu transe, às vezes escutando uma voz que poderia ser familiar, ou não, mas uma espera quase que infindável. percebeu vagamente sua mãe falando a alguém que não tinha dinheiro para tanto, como iria fazer aquilo... não tinha como, e agora... ele forçou-se a ouvir quando escutou o nome que ela atendia quando estava viva, e teve que pedir para alguém repetir, mas todos diziam que ele não devia se preocupar, que iriam ajeitar tudo por ele, que ele tinah que ser forte, mas ninguém queria lhe dizer o que estava acontecendo. andou até o grupo de parentes, onde reconheceu os pais e irmãos dela, olhos vermelhos, discutindo em como arranjar o dinheiro imediatamente. um alarme soou longe em seu cérebro, e aos poucos sua alma, de forma dolorosa e quase que palpável, voltou para dentro de seus olhos, removendo por instantes aquele véu de inconsciência em que tinha caído: para que precisavam de dinheiro, para um funeral? todos viraram os olhos, a mãe veio lhe segurar os ombros. e ele se lembrou que tentara se matar logo depois que tinham tirado o corpo dela de seus braços, de que tinha saído desvairado para o meio do trânsito, pois queria morrer do mesmo jeito que ela, para encontrá-la no caminho... ou no esquecimento, no nada, qualquer coisa melhor que sua súbita solidão. e envergonhado e irritado, percebeu porque ninguém lhe dizia nada, pois não era ele, era seu desespero que estava estanpado em seu rosto. forçou-se a perguntar, em voz alta, mas firme, o que estava acontecendo, onde ela estava? e a mãe explicou que o enterro teria que ser em caixão fechado, pois o rosto dela estava muito estragado pelo acidente, mas que o funcionário tinha oferecido um serviço, uma reconstrução do rosto, por oitocentos reais, mas que ele ficasse tranquilo, pois a família dela iria arranjar o dinheiro... ele olhou para baixo, viu a própria camisa ainda manchada como sangue dela, misturado como seu, os dois como um só, e se lembrou de seu rosto, seu rosto pela última vez no seu colo, ainda encontado no ônibus... e ele viu: mãe, mãe, o rosto dela estava todo inteiro, mãe, que fizeram com o rosto dela, que eu vi, abracei e beijei, mãe, que o rosto dela nada tinha... o solícito funcionário do iml, que assitia a cena, deu um sorriso amarelo e disse que podia haver um engano, que ia verificar... e sumiu. muito mais tarde um outro funcionário disse que havia um engano e que, não, de forma alguma, havia qualquer dano no rosto dela. a mãe dele, enfermeira escolada, insistiu, quantos corpos havia lá, quantos, e quais... constrangido, o funcionário disse que apenas o dela, e de um homem que havia sido baleado pela polícia...
os fatos que inspiraram este texto, assim como todos os anteriores, são reais, e se deram no mês de junho, em uma capital do nordeste brasileiro.

Sábado, Julho 01, 2006

memória a ser perdida


florazul será para sempre o exemplo de uma mulher forte que, mesmo humilhada, não se deixou dominar por uma situação, será para sempre a mãe que, se não pôde dar exemplo de comportamento, pode sempre dar exemplo da vida. mas nem sempre a historia é assim, e esta história não fui eu que colhi. novamente altero e distorço parte dos fatos para proteger a identidade tanto do médico como da sua paciente.
o jovem médico suspirou cansado ao ver entrar aquela que era a última paciente do dia e da semana no seu consultório de psf no interior nordestino. sabia que era um caso que estava além da sua medicina e quase que além da sua ajuda como ser humano, só podia dar atenção e ouvidos, e desejar de coração que a série de lamúrias se encerrasse logo. amélia (nome falso) principiou como sempre as queixas típicas de sua doença depressiva, e o médico, já antecipando o seu inevitável pedido, puxava já o bloco azul da gaveta para uma receita de diazepínico (apenas os muito inocentes ou muito distantes seriam capazes de acreditar em um atendimento em saúde mental que fosse capaz de atender a essa gente sofrida, sem instrução nem recursos, pois quase sempre um encaminhamento a um psiquiatra é um estigma de loucura e perdição, e mesmo quando aceito, as consultas são isoladas, dificílimas de serem marcadas, na capital distante, que custa dia de trabalho e dinheiro para ir; além do medo da cidade grande onde não conhece ninguém e ninguém se conhece; consultas quase sempre muito distantes entre si, e dificilmente dadas pelo mesmo profissional. os medicamentos, caros e de uso crônico, acabam não sendo usados, ou usados de maneira inadequada, piorando a situação do paciente, que se volta mais uma vez a origem de seu encaminhamento, o clínico do psf, que acaba por prescrever novamente um benzodiazepinico, como o diazepam, de ação rápida e curta, gerando sua típica sonolência pesada e um sono inconsciente e sem sonhos. induz tolerância, dependência, e é mais caro e muito mais dificil de se obter que o álcool, pois precisa da conivência de um médico para poder ser usado), amélia olhou para o bloco azul e começou a chorar e a contar, como se contar fosse tão importante quanto alimentar seu vício pelas pílulas brancas que lhe permitiam descansar um pouquinho sua vida sofrida e seu corpo cansado. amélia falou do marido, bêbado e incapaz de se manter em um emprego mais que uma temporada, e que cada fez que o dinheiro falta para o bar bate em sua mulher e em sua filhas. amélia falou do dia que quase menina ainda, saiu escondida de sua mãe para ir a um forró, e lá conheceu de uma só vez as belas luzes e as músicas da noite nordestina estrelada, o sabor amargo mas estranhamente bom de uma cerveja e a tontura da cachaça, que tornava o ritmo tão gostoso e que fazia palpitar o coração de menina-moça. amélia contou de como, quase que num instante, conheceu palavras de amor, desejo e paixão, ou não sabe se era sa letra da música, mas que se fez mulher por trás do bar, sem tirar calças ou saias, e como ali, sem leito nem beijos, no cheiro e na tontura do álcool, iniciou-se seu destino. amélia contou do casamento, sem enxoval, do repudio dos irmãos pelo casamento, e da morte quase que repentina de sua mãe. Os irmãos já casados lhe deixaram a casa, que para a irmã, mesmo sem juízo, não podia faltar teto, e os papeis do inventario da mãe foram acertados. amelia disse como ficou feliz em saber que a vidinha em seu ventre tinha um teto garantido. amélia chorou de novo ao dizer que isto se tornara a sua desgraça e a sua prisão. isto apenas se tornou uma garantia dos empréstimos que seu marido veio a fazer, e se endividar e sofrer ameaças. isso só veio a se tornar seu cárcere, após as surras que, nem sabe como não a fizeram abortar a filhinha, e que seria quase bom, amelia contou, que tivesse sua barriga expulsado aquela filhinha, e depois a segunda, que cresceram com pouco leite de seu peito e pouco cuscuz no prato. amelia contou como ele tranca a porta enquanto leva as meninas para a casa de outros velhos bêbados e decrépitos que gostam de lhes enfiar dedos e lhe lamber as partes enquanto se masturbam seus membros murchos; contou do medo de fugir ou se queixar, pois jurou a ela e a as meninas de morte, várias vezes, várias vezes, várias vezes... amélia contou que não pode ele nem desconfiar que disse qualquer coisa para qualquer um, poismorre antes de a policia o pegar, ou depois que o soltar, ou ate antes, pela mao de seus amigos de bebida. amelia se fez escrava de seu sofrimento. amélia não pode contar com uma autoridade de um conselho tutelar que já, por diversas experiências, vimos que não age naquela cidade, não apura, muito menos protege. amélia não pôde contar com ninguém a não ser com sua pequenas pílulas de dormir, que o medico cansado que se esqueceu de seu cansaço acaba por escrever no bloco azul, cada vez mais relutante e frustrado, cada vez mais desanimado com sua medicina, cada vez mais humano.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

memória da florazul



desta seguinte saga só posso contar um pedaço, pois dela pouco participei, e dela nunca saberei o fim. é um daqueles pedaços de história que pegamos andando, como uma linha de ônibus que não estamos acostumados a usar, mas como passa pelo nosso ponto, embarcamos, e descemos aliviados por não ter chegado a nenhum lugar desconhecido. florazul é como chamarei a esta paciente, pois muito me chamou a atenção uma tatuagem sua, da qual uma rosa em azul é uma parte. ela me autorizou a contar a sua história, mas ainda assim preservo sua identidade. florazul foi prostituta a maior parte de sua vida, e disse que se faltar comida ou caderno aos filhos, volta para a luta como quem sai para comprar pão. me foi levada ao atendimento pela primeira vez a alguns meses, e alguém já tinha conseguido me cochicar qualquer coisa sobre uma suposta história de promiscuidade. sentei e ouvi as queixas da paciente, sem levar em conta nada mais do que ela dizia, pois a onu considera que é promiscuo qualquer pessoa que tiver relação sexual com mais de dois parceiros no intervalo de um ano. a maioria dos meus conhecidos é promíscua, então. florazul sofria e sofre ainda de intensas dores abdominais, ao andar e ao descer uma escada, tem história de corrimento vaginal de repetição, e muitas cicatrizes de homens que não sabiam ainda que mulher prefere carinhos. florazul, que um dia foi moça bonita, enfeiou com a velhice precoce da meia idade e sofre todos os dias com o preconceito e com a dor de sua doença inflamatoria pélvica, que um colega, muito desinformado da medicina nos últimos trinta anos, ainda tentou tratar diversas vezes usando um creme vaginal para micoses... florazul disse que só tenta agora vir a médicos que estão novos na cidade, pois nos velhos não consegue confiar mais. um deles lhe fez uma proposta de "trabalhar" para ele, em troca de um tratamento melhor, e a exemplo do que disse a personagem geni, de chico buarque de holanda, ela disse que preferia amar com os bichos. e foi desde o momento em que vi esse orgulho e espírito que pensei comigo que deveria fazer qualquer esforço para ajudar a florazul. comecei por tratar de forma empírica o corrimento vaginal, fétido de peixe podre, pruriginoso e fluíco corrimento de gardnerella vaginalis com creme de metronidazol e azitromicina, uma ampla cobertura que poderia pegar outras bactérias associadas, além de uma pequena preleção sobre prevenção e higiene. pedi exames, especialmente uma ultrassonografia pélvica, e um preventivo pós-tratamento. algum tempo depois ela retorna, apresentando diversas imagens de debris fibrosos tanto na pelve como no fígado. desci do ônibus desta história quando a encaminhei para um serviço terciário de ginecologia, já pensando em uma cirurgia para eliminar os focos infecciosos intra-abdominais e disse a ela tudo isso, e ela aceitou minha recomendação para realizar exames para hiv, sifilis e hepatites. semana passada ela me encontrou fora do atendimento, e toda feliz mostrou o exame de hiv negativo, assim como todos os outros. "meus dois filhos são de um pai só, não que o desgraçado saiba. penei muito tempo lavando roupa no rio pela manhã, tratando da casa de tarde e caindo de boca e pernas de noite nos caminhoneiros e nos bêbados atrás das cigarreiras ou em qualquer mato. peguei doença sim, que minha vida não foi certa nem teve cuidado. mas uma força, doutor, uma força me protege, que só peguei doença que tem jeito, que o senhor me disse já que tem jeito, dificil, só na capital, mas tem. essa força pode ser deus, nao é doutor, pode ser deus que viu que meus dois filhos na escola vão se dar bem, e cuidar da mãe quando ela não puder mais nada, não é doutor?" sorri para ela, condescendete. nunca poderia dar qualquer resposta a ela, não poderia dar qualquer garantia pelos filhos ou pelo futuro. peço por ela a aquela força que a protege, que pode ser deus, para que um pouco de felicidade nesses tão queridos e tão duramente criados filhos nunca se envergonhem e nunca descuidem de florazul, que mesmo murcha, se destaca, e pode até rebrotar.

Domingo, Abril 02, 2006

memória do porto perdido


uma coisa triste, e constante, é deixar para trás os pacientes quando trocamos de emprego. o trabalho em psf no interior do nordeste tem seus percalços, e a rotatividade de médicos que passam por um lugar atras de um trabalho, e saem dele em busca de melhores condiçoes é grande. estou em uma mesma cidade a 8 meses, e estou migrando para uma outra cidade, na mesma região, por uma salário melhor e uma melhor condição de trabalho: não terei de fazer atendimento hospitalar no horário do psf, irregularmente, diga-se, terei um posto de atendimento fixo, e um salário 5% maior. mas é triste, fiz amigos entre meus pacientes, e comunicar minha saída para a população é algo doloroso, eles que me recebiam em suas casas, contavam-me seus segredos. eu os chamo pelos nomes, eles me chamam de doutor, sempre o doutor, título ruim, pois faz parecer que quem o porta é de alguma forma melhor ou mais importante do que qualquer um deles. ficará saudade daquela senhora que sempre depois do atendimento fazia questão de que a equipe toda parasse em sua casinha, um sitiozinho com um pomar e muita palma plantada para o gado comer na seca, e nos oferecia um suco de maracujá. ou da agente de saúde que fazia questão de nos oferecer um lanche com queijo caseiro quentinho na manteiga e batatas doces. nunca, como meio de subsistência, qualquer coisa destas me fez e, espero, não me fará falta. mas aquele carinho, aquela confiança, isso deixa muita saudade, mesmo antes de partir. sei que algum outro virá. poderá tratar dessa gente com cuidado ou não, com qualidade ou não. pode até receber esse carinho todo, ou até mais do que eu recebi. mas fica uma saudade e uma preocupação com eles, se estarão bem, e ao mesmo tempo a vergonha, a imensa vergonha, da sensação de que os estou abandonando, de que estou desistindo deles, que sempre me trataram tão bem. falo isso apenas dos pacientes, da população. é para eles e sempre será para eles que trabalharei. mas medicina é um estranho sacerdócio, que também é trabalho, emprego, ofício. há compromissos financeiros e com a saúde física e mental do profissional de saúde que muitas vezes são relevadas a segundo planos, ou nem mesmo levadas em consideração. abandono meus amigos, minhas amigas e minhas crianças, mais de seicentas famílias que farão de mim órfão de muitos pais, mães, avós, avôs, irmãos, irmãs, filhos e filhas. fico eu órfão de todos eles, que no máximo ficarão órfão de mim, um só. não espero que lembrem de mim depois de algum tempo, é mesmo melhor que não lembrem. eu continuarei escrevendo suas histórias de sofrimento como uma forma de não me esquecer. o próximo texto já será enviado de outro porto, uma garrafa atirada de mais longe ainda, perdida no meu oceano de duvidas.

Quarta-feira, Março 08, 2006



na madrugada
à hora em que os grilos se calam
sobra apenas o interminavel zumbido
vem de dentro
e disse-me um bruxo que é o som de uma alma sendo vagarosamente dilacerada pelo próprio vazio

Terça-feira, Março 07, 2006

memórias da realidade


eles se aproximam novamente, e é estranho como eles quase não se dão conta de que se aproximam. tem uma mesinha ali, com um banco comprido. eles falam. eles falam e sentam para terminar um lanche, sempre apressados e de comida ruim de uma lanchonete que deve ter aqui perto.
sempre sinto o cheiro da gordura reaproveitada das coxinhas de frango e do café coado em coador de pano, um saco de pano muito velho, daqueles que tem nas cafeteiras de bares velhos, um balconista de mãos sujas esquenta uma chaleira grande demais de água e despeja em uma quantidade de menos de pó. no fim torce o saco de pano, quando muito passa embaixo de um fio de água da torneira e pendura embaixo do balcão, aonde o freguês não vê, e nem o fiscal, se deus permitir. não é como o café da samira. samira fazia um café turco em xícaras de louça. tinha que ter cuidado e não tomar até o fim, ficava sempre um pouquinho de pó entre os dentes, que discreta e secretamente ficávamos limpando com a ponta da língua, mastigando os grãozinhos maiores enquanto procurávamos um assunto qualquer para falar, e quase não falávamos. no início olhávamo-nos nos olhos e isso bastava. depois nem isso.
mas eles falam muito, falam o tempo todo, enquanto as mãos mexem em mim, como autômatos descerebrados, sem cuidado e sem carinho. tem uma moça com um rostinho angelical que é especialmente brutal se vem sozinha, acho que à noite ou em fins de semana. uma vez foi até bom, que ela veio em um domingo, pela manhã, e como não tinha ninguém para ver ela nada fez, só ficou ali na mesa, tomando um refrigerante e lendo uma revista qualquer enquanto a tv do corredor transmitia uma corrida de formula um que foi ganha por um alemão que nunca entendi o nome direito. às vezes eu tenho raiva dessa tv que nunca desligam, aquele som contínuo e impessoal, sempre querendo que se ache que o que ali se passa é tudo verdade e novidade. esse som me impede de me lembrar das coisas como elas são, ou como eram. deve ter alguém que assiste as imagens que devem estar passando junto com o som dessa tv, pois às vezes o som aumenta, às vezes diminui, mas ele só pára quando tem corte de luz (e deus abençoe os cortes de luz noturnos, que bons momentos de paz...). acho que quem fica olhando ali no corredor quer esquecer. eu quero lembrar. em casa de samira não tinha tv. tinha um violão que nunca ninguém tocou, e um relógio de corda que fazia tique-taque, sempre atrasava, mas quando tinha de se acordar cedo era fácil, era só dar bastante corda e colocar para tocar uma hora mais cedo, no fim dava tudo certo. a moça de rosto angelical, de um cabelo loiro que não pode ser real, aquele dia terminou seu refrigerante, tirou o lençol de cima e colocou um limpo, e pegou o resto das roupas limpas e jogou tudo no cesto, como se fossem as sujas. bocejou e foi embora. gostaria que fosse sempre assim.
também não gosto quando dizem palavrão. sei que as coisas aqui não cheiram tão bem. tinha uma vez uma ferida, acho que nas costas, que deu bicho, bicho de mosca. eu não me importava muito, e nem o pessoal da coxinha com café ruim, mas tinha um rapaz de fala afetada que só dizia “puta merda como fede a porra dessa ferida” e por ai vai. e nesses momentos que eu preciso lembrar. não lembro como eu ganhava dinheiro, mas lembro de que dava dinheiro para samira fazer feira. quando eu dava uns trocos a mais ela sempre trazia damascos secos, num pacotinho de celofane muito brilhante com uma etiqueta de código de barras com o peso e o preço das cento e poucas gramas. ela nunca comprava mais que isso. eu comia um ou dois pedacinhos, nunca achei graça na frutinha seca, mas ela comia devagar, com os olhos fechados, a expressão leve. cento e poucas gramas de saudades e lembranças. como eu queria sentir o gosto dos damascos de samira, hoje sei que poderia saboreá-los com o mesmo prazer. mas na boca o cheiro se transformava num gosto ruim de carne podre e morta, que eu nunca podia engolir ou cuspir, uma saliva morna empoçada, que eles, sempre falando muito, chupavam com um canudo barulhento que saía da parede e depois limpavam minha boca com pedaços de gaze molhada em bicarbonato. samira nunca fez biscoitos com bicarbonato, mas alguém um dia fez, em forma de roscas grandes e achatadas, num forno desregulado, sempre queimava um pouquinho em baixo, mas eu comia de meia dúzia com leite e café, café de coador de papel, fresquinho, feito com água do filtro e pó fininho tirado de uma lata de alumínio com tampa vermelha com florzinhas prateadas em baixo relevo. não sei mais quem fazia esse café, mas ele tinha cheiro de amor e limpeza.
um dia chegou um homem careca, com um jaleco muito limpo e ar de autoridade, esse não falava quase nada, pediu um monte de coisas e limpou a ferida sem usar anestesia. eles nunca usam anestesia, e no meio de suas falas intermináveis penso que se acham justificados pelo fato de não notarem nenhuma reação. eu não gosto dessas sessões de dor a qual não reajo e não posso reagir. a dor penetra o mais fundo que pode na consciência e varre sem dó qualquer lembrança durante muito tempo. ouvi uma vez falar de tortura. e acho que o condenado falava qualquer coisa que o torturador quisesse, não porque quisesse fazer passar a dor, mas porque durante a dor não se consegue lembrar mais nada, e se alguém te empurrar uma lembrança ela irá parecer verdade, mesmo que seja uma verdade sem sabor e sem textura. quando o homem de jaleco terminou disse que passaria em dois dias para ver a evolução do quadro. não passou nunca mais.
tem uma outra dor no passado que varreu uma lembrança que não sei qual é, mas tenho a impressão que explica tudo. é quando aquela mulher gorda que usa uma blusa de lã tricotada a mão vem de noite e me chama pelo nome que parece que eu quase vou me lembrar. ela também fala muito, sempre vem sozinha, e dá a impressão que fala comigo. ela fala “como vamos hoje seu antônio” ou “que frio estamos hoje, seu antônio”, e coisas assim. às vezes canta umas músicas de igreja, hinos, ela chama. samira cantava quando achava que eu não estava perto. cantava numa língua que eu não entendia, numa voz suave, aguda e chorosa. eu escutava por trás da porta da rua, fingindo chegar mais tarde para escutar. se eu pedia não cantava nunca, assim como nunca me disse de quem era o violão. ficava muito triste se eu tocava no assunto, e eu não falava mais. eu não lembro de onde vinha, nem o que fazia. lembro onde conheci samira. eu bati na mesma porta em que a escutava cantar sozinha, ofereci alguma coisa (o que era?) e a voz me morreu ao ver seus olhos puros, uma mancha escura na maçã do rosto, samira também tinha suas dores que a faziam esquecer da verdade por uns tempos. ela me pediu para entrar, e de lá só saí num sonho qualquer que não me lembro para vir para aqui nesse quase não ser e tudo o mais. samira dormia com umas camisolas grandes, de renda no peito. nunca vi samira nua, só na mais absoluta escuridão nossos corpos se tocavam. posso lembrar de cada dobra de sua pele, da pequena verruga por detrás do pescoço e da cicatriz de uma longínqua cesariana quase encoberta pelo pelos longos de seu púbis. um cego deve amar assim, quando não se têm olhos as mãos percebem e tem prazer até nos mais estranhos defeitos do corpo amado. quando não se fala e não se vive mais cada fiapo de lembrança, mesmo amarga, ganha uma importância e uma dimensão que não existiam no momento em que a coisa acontecia. só uma vez samira cantou na minha presença, depois de uma de nossas primeiras noites, no escuro, cabelos soltos e corpo cheirando a suor e damascos, sua voz tão baixa, mas nítida, quase impossível. quando na manhã seguinte pedi para cantar de novo olhou-me assustada, e depois de hesitar um momento me pediu para nunca mais falar disso. e nunca mais cantou. a mulher de casaco de lã sempre termina seu serviço com uma oração em voz alta, e deixa um folhetinho de papel com algum salmo escrito e o endereço de uma igreja na mesinha, encostado num copo que nunca usei. a faxineira que passa de madrugada sempre joga o folhetinho fora.
nunca liguei muito para essa situação. sei que já perdi um dos pés e um pedaço do intestino. eles sempre falam muito, mas é como se falasse de outra pessoa, ali deitada, e eu alheio, percebendo tudo como alguém que vê de longe, mas aquela pessoa era eu, chamavam-me de antônio, diziam às vezes que eu tinha cinqüenta e dois anos e estava em estado vegetativo. samira nunca disse meu nome, pelo menos eu não lembro, e apenas dizia, sem usar verbos “seu café”, ou “seu casaco”, num tom de submissão que não pertencia a nós dois, mas que era um hábito seu, tão arraigado, que não podia mais ser separado da pessoa que era samira. seu nome ela me disse uma só vez, e bastou. eu a chamava samira e ela não me chamava, pois eu voltava todos os dias, acordava todas as manhãs e agora tento me lembras de todos os minutos. esse antônio que eles falam não deve ser alguém muito importante ou querido de ninguém, pois nunca recebe visitas e não tem sobrenome. não deve ter nenhuma bem e nenhuma família. eu tive samira, seus damascos e seus lençóis brancos passados a ferro e quase me basta. se houve alguma coisa antes de samira o que importa?
hoje a moça de rosto angelical chegou sozinha, acho que vai só ler uma revista de novo e ir embora. ela olhou para mim, mas é como se olhasse sem me ver. seu cabelo esta molhado, e posso ver a mácula das raízes pretas denunciando a falsidade de sua aparência. samira tinha cabelos negros, que sempre prendia em um lenço ou numa trança, mas soltava de noite, no escuro. samira nunca veio me ver, ou está morta ou nunca existiu. eu só queria me levantar uma vez que fosse, andar até a porta de tinta verde descascada que dava direto para a rua, e bater, para ver se samira iria me convidar a entrar outra vez. a moça de rosto angelical e mãos brutas tocou na minha mão, mas não senti. ela gritou algo, e a mulher de casaco de lã veio para ver. percebi que a tv, por um motivo qualquer, estava desligada. samira nunca teve uma tv. a mulher de casaco de lã disse numa voz sem tristeza nem emoção “está agora com deus, seu antônio” e cantou outro hino. não tardou apareceu um médico, que olhou de longe e disse “tá, vou fazer os papéis, era diabético?” e a moça de rosto angelical disse qualquer coisa sobre uma tentativa de assassinato. a tv estava desligada, a mulher de casaco de lã finalmente parou de cantar e cobriu meu rosto com o lençol. finalmente estou completamente só e posso me lembrar de samira, sem o som da tv, sem outras dores.

Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

memória do suor


januário (nome falso), foi, durante toda a vida adulta, dono de casa de farinha. para quem não conhece, casa de farinha é onde se beneficia a mandioca para obter diversos produtos, a farinha principalmente, mas também a tapioca, o polvilho azedo e o polvilho doce, mas seu januário era de um lugar famoso pela farinha, e farinha fazia. uma farinha amarelinha, com mandioca escolhida, e dava emprego para uma dez pessoas, quase todo mundo descascando mandioca o dia todo, das seis da manhã até o sol começar a cair. pagamento variou muito, que muitas vezes trocaram o dinheiro no brasil, mas seu januário revele que sempre foi cada vez menos o que pagava e cada vez menos o que ganhava. por muitos anos foi ele que cuidava de mexer a massa da mandioca ralada em cima do fogo, na chapa, para dar o ponto certo, e depois, quando a saúde não dava mais, foi descascar mandioca também. seu januário me conta a história assim, em sua casa de farinha, um telhado de sapê e paredes de uma taipa muito rústioca, moscas por todo o lado, ele descalço e sem camisa, assim como todos os homens ali, as mulheres de vestidos curtos e puídos, com faquinhas muito afiadas nas pedras de amolar que cada um tem ao lado. já sutuei muita gente de casa de farinha com corte na mão. a água que lavam as mãos, a mandioca que vai para fazer a farinha e que os animais bebem tem sempre a mesma origem, o poço ao lado, uns cinco metros do banheiro de fossa negra. vejo muita mosca cair na chapa quando a massa da farinha está nova, questiono seu januário e ele me diz rindo que aquilo é tempero da farinha, e que mosca queimada não faz mal nenhum... a farinha de seu januário é toda comprada por um atravessador, que embala a farinha dele e de outros pequenos produtores com um selo famoso, que vende que nem pão quente na capital.
seu januário perdeu já dois dedos da mão esquerda, e uma perna, usa diariamente (pelo menos diz que usa) colírio para controle do glaucoma e vive com coceira pelo corpo, só comigo já tratou erisilepa três vezes (e estou só a seis meses por aqui), tudo pelo pelo diabetes. é um verdadeiro suplício tentar convencê-lo a não comer farinha o dia inteiro, de bocadinho em bocadinho, os filhos não tem voz ativa, e o patriarca de 78 anos é quem manda e desmanda no seu feudo. a sujeira encardida nas paredes, a fuligem da lenha queimada para assar a farinha na fogueira sem chaminé dentro da casa de farinha, e o pó que o vento leva para as casa em volta, são só o aspecto externo dessa produção medieval. não tem esforço de educação em saúde que convença um velho diabético no nordeste a não comer excesso de farinha de mandioca e carne de sol praticamente em todas as refeições, café da manhã incluso. o uso de insulina está inteiramente fora de questão, pois a localidade não é servida de energia elétrica, e a prefeitura não disponibiliza carro e auxiliar para ir todo dia, com hora certa, aplicar a insulina. ninguém na casa é alfabetizado, e as crianças estão todas descascando mandioca, apesar de ser horário de aula. todos lacrimejam e espirram em cima da mandioca, por conta da fumaça. é outra parte do tempero.
isso tudo se deu a alguns meses. seu januário teve um quadro de insuficiência renal, não foi aceito pelos hospitais de emergência, e não conseguimos em tempo hábil um internamento para ele. os filhos o arrancaram meio que a força ele do lugarzinho que o município chama de hospital e o levaram para morrer em casa, delirando e chamando pela mãe.
o filho de seu januário me procurou semana passada, uns exames na mão e um olhar ansioso. glicose 210 mg/dl, colesterol total 297 mg/dl, glicosúria e proteínúria. falo com ele, fatores de herança genética, necessidade de tratamento e acompanhamento, e dieta.
ele já da um sorriso e do alto de seus 28 anos diz de forma taxativa, que seu pai viveu até quase 80 anos comendo farinha da boa todo dia. não era eu que ia dizer para ele deixar de comer farinha ou qualquer outra coisa. e ele se vai, uma receitinha na mão, que já sei que não vai seguir, para sua casa de farinha, que é negócio de família.

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

memória da dúvida


jessica (nome falso) tem 14 anos, esta casada a um, e tem muito, muito medo de engravidar, pois uma prima sua morreu de parto com sua idade. aqui no interior do nordeste casamentos precoces são comuns, tanto porque existe uma precocidade na iniciação sexual, com pressão das familias para "manter a honra da menina", mas principalmente poruqe uma vez a menina casada, é de responsabilidade da família do marido, e em famílias de 12, 13 filhos, isso quer dizer alguma coisa. jassica procurou o posto porque sentia um desconforto e dor nas relações. solicitei um preventivo, e disse a enfermeira que ela quase chorou para ser examinada. na consulta seguinte também chorou quando descobri-se com uma doença transmissível, a Gardnerella Vaginalis, e uma suspeita de infecção por HPV. Revelou que ainda brinca de boneca no quarto, quando está sozinha, e que sente inveja das meninas que saem paraa escola, para as festas, de rir muito e de paquerar. o tratamento que propus incluia um creme vaginal, e jessica ficou olhando para a receita com medo. expliquei, da forma mais gentil que pude, usando um desenho feito nas costas do receituário, como ela deveria proceder para fazer a aplicação, de noite: primeiro colocar o aplicador vazio no tubo do creme, e enche-lo até o embolo, aquela parte fininha, chegar ao fim, e então deitar de pernas dobradas e afastadas, com uma mão afastar os lábios vaginais e com a outra introduzir o aplicador na vagina, até sentir que encostou no fundo, e então apertar o embolo para por o creme lá no fundo, e não pode ter relações nem plicar nos dias em que estará menstruada. jessica voltou uma semana depois, disse que não consegui aplicar, então pedimos que a enfermeira marcasse um horário em um local onde tivesse uma mesa ginecológica para ensinar para ela. jessica tem medo de engravidar, diz que o marido está recusando a usar camisinha, que já duas vezes forçou a camisinha estourar, e não deixa ela usar pílula. jessica não tem peso corporal suficiente para fazer um uso seguro de anticoncepcional injetável, não terminou de desenvolver os seios, tem voz e rosto de menina. meu deus, tanta discussão por causa de pedofilia, e quando um pai, forçado pelo desespero ou pela vergonha, ou até por dinheiro, autoriza, as meninas se casam e estáo submetidas aos caprichos de um homem mais velho. jessica tem boa cabeça, tem de ser esposa de seu marido, mas ainda tem que ser menina por um tempo, uma infância e uma adolescência perdidas para sempre. ensinei jessica usar a pílula do dia seguinte. se alguém que ler estas linhas me reprovar, vá para a saída de um colégio, e espere para ver uma adolescente clarinha, de cabelos escorridos, ainda menina, rindo com sua amigas, e imagina ela cuidando de uma casa e grávida, a quinze quilómetros que qualquer coisa, sem um telefone ou carro, com um marido bêbado que bate nela se ela o recusa na cama, e imagina essa menina num hospitaleco desequipado, onde não tem sabão para o médico lavar as mãos, tendo um parto normal, sofrendo uma episiotomia que em 45% das vezes irá infeccionar, e imagina essa menina grávida de novo depois de um ano, já com prolapso de bexiga, como tantas utras que já atendi, e se você imaginar isso tudo e não te der uma revolta muito grande, você não merecer ter filhos nem deixar descendência. até!

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006

memória de uma violência

a mão coçava um pouquinho por causa do pó do cal. nem pensava em reclamar do cal, era um agrado ao doutor, e que fazer? estava atendendo num posto improvisado (todos são, na cidade de B...), um salão anexo a uma casa na beira da estrada, chão de cimento queimado, uma grande porta de meia-folha, que fica aberta o tempo todo, vento e olhares curiosos, poeira de caminhão e cheiro de esterco do matadouro ali perto, se o vento estivesse a favor. as fichas ficam voando o tempo todo, levo livros pesados, computador de mão, e uma pedra, para segurar o monte de papeis como posso. e hoje a surpresa: em vez da carteira de escola velha e com os pregos arranhando as pernas por baixo, uma nova mesa, com dois cavaletes, e o tampo de tábua lixada e cuidadosamente caiada, branquinha. um agrado do dono da casa, que toda semana me dá uma sacola de manga rosa, quando é época, tratei a algum tempo de sua mulher que sofria de uma cólica, e ganhei sua gratidão, as mangas e uma dermatite alérgica pelo cal. mas sorrio confiante e peço para entrar o último paciente.
entra a moça, morena bonita de olhos tristes, de uma tristeza que ultrapassa a possibilidade de compaixão: o que ela passa quase ninguém pode dizer que entende, e a mãe com olhos de medo. nunca falei com nenhuma das duas antes, mas conheço a pessoa que não está ali.
o padrasto da menina, que semanas atrás veio pedir "um creme para esfoladura" que tinha "sua pinta" toda ralada porque dava quatro por noite, e como prova tira para fora da calça o objeto da esfoladura, seu pênis totalmente coberto de marcas e lesões de candidíase e fedido pelo corrimento de gonorréia, e o põe em cima da mesa, que então ainda não era caiada. cirrótico, bêbado famoso. falei com ele sobre como tratar aquilo, passei receita, ele saiu rindo e atravessou a estrada, e ficou olhando pelo vão da porta até o atendimento terminar me brindando com uma garrafa de Pitú.
peguei a ficha, olhei a moreninha nos olhos, ela não sustentou o olhar, e perguntei em que poderia ajudá-la. frente a um silêncio pesado, a mãe disse que ela tinha um pouco de vergonha, mas que iria explicar. a moça de quinze anos sofria de muitas cólicas na menstruação, sangramento escessivo, chegava a usar três pacotes de absorvente por mês, junto com dores de cabeça e no baixo ventre. olhei para o vão aberto da porta, levantei da cadeira e espiei fora, não tinha mais ninguém, foi bom ela ser a última paciente. perguntei sobre as datas do ciclo, o tipo da dor, e outras coisas. as informações todas eram dadas de olhos baixos. apalpei sua barriga por cima da roupa, com ela sentada, e imaginei se os espiritos dos professores de semiologia estariam se rolando no caixão, mas não tenho mesa de exame, tenho um chão sujo de pegadas de esterco e cocô de galinha, e uma mesinha tosca caiada. a menina referia dor no baixo ventre e à esquerda. muito pálida, lábios e lingua descorada, provavelmente anêmica por perda menstrual. falei sobre a necessidade de alguns exames, de uma ultrassonografia, pois suspeitava de um problema relacionado aos ovários. lágrimas nos olhos da filha, lágrimas nos olhos da mãe - médico - ela fala - essa menina é minha que peguei a criar, mas ela foi operada com sete anos - e mais silêncio - me fale da operação, o que foi... - foi uma períneo - ela... ela teve algum acidente? - ela foi "trupada", "truparo" ela toda, seu médico, mas o moço que fez isso fugiu - disse olhando cheia de medo para a porta, cheia de medo para o banco do outro lado da estrada. compreendi. - e ela depois disso nunca mais foi no médico? - não, que a gente sofre muito de vergonha.
que horror, pensei, que horror.
encaminhei para o lento sistema do SUS no nordeste dar conta de realizar exames de doenças venéreas e ultrassonografia na jovem assustada. pedi a enfermeira da minha equipa, uma carioca de meia idade, descolada e experiente, que conversasse um pouco com elas e explicasse como seriam feitos os exames. elas ficaram mais a vontade de falar com outra mulher.
antes de sair, a mãe da menina volta e me diz baixinho, bem baixinho - médico, assim com o senhor falando com a gente, parece até que ainda dá para ter alguma esperança. ela foi a primeira paciente que tive que não me chamou de doutor.
quando ela sai sou eu que tenho uma lágrima a esconder, e só piorei a situação esfregando a mão de cal nos olhos.

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

conciência de um exílio


(esta foto foi emprestada de http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/photo208431.htm, se o proprietário se sentir lesado pelo seu uso, peço desculpas, e retiro a foto se ele assim quiser)

foi ao ver uma pequena reportagem sobre ilhabela na tv globo que tive pela primeira vez consciência de meu exílio, voluntário, por amor, junto de minha família e dentro de meu país.

lembro-me que eu e ela íamos a ilhabela até três vezes ao ano, e achavamos tudo lindo, desde os mosquitos até o ponto das letras (será que ainda está lá?), que servia uma deliciosa torta de banana e tinha todos os discos do madredeus. havia calor durante o dia e a medida exata de frio a noite para que casais como nós ficássemos abraçados por toda uma noite, sem que nosso suor incomodasse, como acontece com muitos que depois do sexo quase não conseguem permanecer abraçados. podíamos nos satisfazer com o cheiro um do outro, e isso sempre bastava. nunca mais ilhabela, chegamos a ter lá um terreno onde iríamos fazer um chalé, no alto, onde tinha vento, árvores altas e vista para o canal ao sul.

estou hoje num paraíso, próximo a uma das mais badaladas praias do nordeste. estou numa casa de árvores altas. tenho dois empregos (sou médico). tenho três filhos lindos, e uma esposa que amo mais que qualquer coisa, e aprendi isso quase que aos poucos, a medida que a paixão parecia esfrias num casamento de treze anos, mais e mais percebia que seu amor me bastava, e não tinha necessidade de mais nada. ela é o vento que balança meus galhos, árvore desterrada, ramos secos, mas que ainda pode balançar ao vento e sentir-se feliz com o balanço.

estou num paraíso sem amigos, sem parceiros. não tenho contato com outros médicos, enfermeiras e auxiliares que trabalham comigo me isolam me chamando de doutor, o doutor, o doutor... centenas de pacientes que atendo toda semana, também me tratam de doutor, doutor, o doutor que não sou, sou um médico, um humano que resolveu se interessar por entender e mitigar, dentro de minhas poucas possibilidades, um pouco desse sofrimento, nem que seja para sofrer junto. meu apostolado, como diria Bailint, me afastou das pessoas: vejo desgraças e nascimentos, corrupção e pequenos milagres cotidianos, mas como estou como a árvore com as raízes arrancadas, não posso transformar toda essa luz em frutos...

é isso: com filhos pequenos não posso dividir minhas experiências. com uma esposa professora, doutora, ela sim, no auge de uma carreira que ainda dará muitos frutos, tudo que conto lhe parece simples queixa, ou quando muito, um desfiar de desgraças. suas atençoes também ao sofrimento humano, no fim das contas, utiliza-se de outros prisma. estamos em um mesmo navio, mas um olha o ceú e as profundezas, enquanto o outro mira o horizonte. são poucas as vezes que conseguimos juntar isso numa única paisagem.

sinto-me só cercado das pessoas que mais amo. a imagem da saudosa ilhabela, quando eu viajava como turista, doeu-me como um cautério, mas acho que não pôde fechar a ferida. ponho aqui minhas memórias de exilado, como em garrafas de náfrago. não sei se alguém as lerá, não sei se alguém as compreenderá. escrevo por escrever. quem sou não importa. quem sou não interessa. se algo que vivi puder sensibilizar alguém para a dor do mundo, isso sim. isso sim.

amanhã mandarei outra garrafa ao léu