
eles se aproximam novamente, e é estranho como eles quase não se dão conta de que se aproximam. tem uma mesinha ali, com um banco comprido. eles falam. eles falam e sentam para terminar um lanche, sempre apressados e de comida ruim de uma lanchonete que deve ter aqui perto.
sempre sinto o cheiro da gordura reaproveitada das coxinhas de frango e do café coado em coador de pano, um saco de pano muito velho, daqueles que tem nas cafeteiras de bares velhos, um balconista de mãos sujas esquenta uma chaleira grande demais de água e despeja em uma quantidade de menos de pó. no fim torce o saco de pano, quando muito passa embaixo de um fio de água da torneira e pendura embaixo do balcão, aonde o freguês não vê, e nem o fiscal, se deus permitir. não é como o café da samira. samira fazia um café turco em xícaras de louça. tinha que ter cuidado e não tomar até o fim, ficava sempre um pouquinho de pó entre os dentes, que discreta e secretamente ficávamos limpando com a ponta da língua, mastigando os grãozinhos maiores enquanto procurávamos um assunto qualquer para falar, e quase não falávamos. no início olhávamo-nos nos olhos e isso bastava. depois nem isso.
mas eles falam muito, falam o tempo todo, enquanto as mãos mexem em mim, como autômatos descerebrados, sem cuidado e sem carinho. tem uma moça com um rostinho angelical que é especialmente brutal se vem sozinha, acho que à noite ou em fins de semana. uma vez foi até bom, que ela veio em um domingo, pela manhã, e como não tinha ninguém para ver ela nada fez, só ficou ali na mesa, tomando um refrigerante e lendo uma revista qualquer enquanto a tv do corredor transmitia uma corrida de formula um que foi ganha por um alemão que nunca entendi o nome direito. às vezes eu tenho raiva dessa tv que nunca desligam, aquele som contínuo e impessoal, sempre querendo que se ache que o que ali se passa é tudo verdade e novidade. esse som me impede de me lembrar das coisas como elas são, ou como eram. deve ter alguém que assiste as imagens que devem estar passando junto com o som dessa tv, pois às vezes o som aumenta, às vezes diminui, mas ele só pára quando tem corte de luz (e deus abençoe os cortes de luz noturnos, que bons momentos de paz...). acho que quem fica olhando ali no corredor quer esquecer. eu quero lembrar. em casa de samira não tinha tv. tinha um violão que nunca ninguém tocou, e um relógio de corda que fazia tique-taque, sempre atrasava, mas quando tinha de se acordar cedo era fácil, era só dar bastante corda e colocar para tocar uma hora mais cedo, no fim dava tudo certo. a moça de rosto angelical, de um cabelo loiro que não pode ser real, aquele dia terminou seu refrigerante, tirou o lençol de cima e colocou um limpo, e pegou o resto das roupas limpas e jogou tudo no cesto, como se fossem as sujas. bocejou e foi embora. gostaria que fosse sempre assim.
também não gosto quando dizem palavrão. sei que as coisas aqui não cheiram tão bem. tinha uma vez uma ferida, acho que nas costas, que deu bicho, bicho de mosca. eu não me importava muito, e nem o pessoal da coxinha com café ruim, mas tinha um rapaz de fala afetada que só dizia “puta merda como fede a porra dessa ferida” e por ai vai. e nesses momentos que eu preciso lembrar. não lembro como eu ganhava dinheiro, mas lembro de que dava dinheiro para samira fazer feira. quando eu dava uns trocos a mais ela sempre trazia damascos secos, num pacotinho de celofane muito brilhante com uma etiqueta de código de barras com o peso e o preço das cento e poucas gramas. ela nunca comprava mais que isso. eu comia um ou dois pedacinhos, nunca achei graça na frutinha seca, mas ela comia devagar, com os olhos fechados, a expressão leve. cento e poucas gramas de saudades e lembranças. como eu queria sentir o gosto dos damascos de samira, hoje sei que poderia saboreá-los com o mesmo prazer. mas na boca o cheiro se transformava num gosto ruim de carne podre e morta, que eu nunca podia engolir ou cuspir, uma saliva morna empoçada, que eles, sempre falando muito, chupavam com um canudo barulhento que saía da parede e depois limpavam minha boca com pedaços de gaze molhada em bicarbonato. samira nunca fez biscoitos com bicarbonato, mas alguém um dia fez, em forma de roscas grandes e achatadas, num forno desregulado, sempre queimava um pouquinho em baixo, mas eu comia de meia dúzia com leite e café, café de coador de papel, fresquinho, feito com água do filtro e pó fininho tirado de uma lata de alumínio com tampa vermelha com florzinhas prateadas em baixo relevo. não sei mais quem fazia esse café, mas ele tinha cheiro de amor e limpeza.
um dia chegou um homem careca, com um jaleco muito limpo e ar de autoridade, esse não falava quase nada, pediu um monte de coisas e limpou a ferida sem usar anestesia. eles nunca usam anestesia, e no meio de suas falas intermináveis penso que se acham justificados pelo fato de não notarem nenhuma reação. eu não gosto dessas sessões de dor a qual não reajo e não posso reagir. a dor penetra o mais fundo que pode na consciência e varre sem dó qualquer lembrança durante muito tempo. ouvi uma vez falar de tortura. e acho que o condenado falava qualquer coisa que o torturador quisesse, não porque quisesse fazer passar a dor, mas porque durante a dor não se consegue lembrar mais nada, e se alguém te empurrar uma lembrança ela irá parecer verdade, mesmo que seja uma verdade sem sabor e sem textura. quando o homem de jaleco terminou disse que passaria em dois dias para ver a evolução do quadro. não passou nunca mais.
tem uma outra dor no passado que varreu uma lembrança que não sei qual é, mas tenho a impressão que explica tudo. é quando aquela mulher gorda que usa uma blusa de lã tricotada a mão vem de noite e me chama pelo nome que parece que eu quase vou me lembrar. ela também fala muito, sempre vem sozinha, e dá a impressão que fala comigo. ela fala “como vamos hoje seu antônio” ou “que frio estamos hoje, seu antônio”, e coisas assim. às vezes canta umas músicas de igreja, hinos, ela chama. samira cantava quando achava que eu não estava perto. cantava numa língua que eu não entendia, numa voz suave, aguda e chorosa. eu escutava por trás da porta da rua, fingindo chegar mais tarde para escutar. se eu pedia não cantava nunca, assim como nunca me disse de quem era o violão. ficava muito triste se eu tocava no assunto, e eu não falava mais. eu não lembro de onde vinha, nem o que fazia. lembro onde conheci samira. eu bati na mesma porta em que a escutava cantar sozinha, ofereci alguma coisa (o que era?) e a voz me morreu ao ver seus olhos puros, uma mancha escura na maçã do rosto, samira também tinha suas dores que a faziam esquecer da verdade por uns tempos. ela me pediu para entrar, e de lá só saí num sonho qualquer que não me lembro para vir para aqui nesse quase não ser e tudo o mais. samira dormia com umas camisolas grandes, de renda no peito. nunca vi samira nua, só na mais absoluta escuridão nossos corpos se tocavam. posso lembrar de cada dobra de sua pele, da pequena verruga por detrás do pescoço e da cicatriz de uma longínqua cesariana quase encoberta pelo pelos longos de seu púbis. um cego deve amar assim, quando não se têm olhos as mãos percebem e tem prazer até nos mais estranhos defeitos do corpo amado. quando não se fala e não se vive mais cada fiapo de lembrança, mesmo amarga, ganha uma importância e uma dimensão que não existiam no momento em que a coisa acontecia. só uma vez samira cantou na minha presença, depois de uma de nossas primeiras noites, no escuro, cabelos soltos e corpo cheirando a suor e damascos, sua voz tão baixa, mas nítida, quase impossível. quando na manhã seguinte pedi para cantar de novo olhou-me assustada, e depois de hesitar um momento me pediu para nunca mais falar disso. e nunca mais cantou. a mulher de casaco de lã sempre termina seu serviço com uma oração em voz alta, e deixa um folhetinho de papel com algum salmo escrito e o endereço de uma igreja na mesinha, encostado num copo que nunca usei. a faxineira que passa de madrugada sempre joga o folhetinho fora.
nunca liguei muito para essa situação. sei que já perdi um dos pés e um pedaço do intestino. eles sempre falam muito, mas é como se falasse de outra pessoa, ali deitada, e eu alheio, percebendo tudo como alguém que vê de longe, mas aquela pessoa era eu, chamavam-me de antônio, diziam às vezes que eu tinha cinqüenta e dois anos e estava em estado vegetativo. samira nunca disse meu nome, pelo menos eu não lembro, e apenas dizia, sem usar verbos “seu café”, ou “seu casaco”, num tom de submissão que não pertencia a nós dois, mas que era um hábito seu, tão arraigado, que não podia mais ser separado da pessoa que era samira. seu nome ela me disse uma só vez, e bastou. eu a chamava samira e ela não me chamava, pois eu voltava todos os dias, acordava todas as manhãs e agora tento me lembras de todos os minutos. esse antônio que eles falam não deve ser alguém muito importante ou querido de ninguém, pois nunca recebe visitas e não tem sobrenome. não deve ter nenhuma bem e nenhuma família. eu tive samira, seus damascos e seus lençóis brancos passados a ferro e quase me basta. se houve alguma coisa antes de samira o que importa?
hoje a moça de rosto angelical chegou sozinha, acho que vai só ler uma revista de novo e ir embora. ela olhou para mim, mas é como se olhasse sem me ver. seu cabelo esta molhado, e posso ver a mácula das raízes pretas denunciando a falsidade de sua aparência. samira tinha cabelos negros, que sempre prendia em um lenço ou numa trança, mas soltava de noite, no escuro. samira nunca veio me ver, ou está morta ou nunca existiu. eu só queria me levantar uma vez que fosse, andar até a porta de tinta verde descascada que dava direto para a rua, e bater, para ver se samira iria me convidar a entrar outra vez. a moça de rosto angelical e mãos brutas tocou na minha mão, mas não senti. ela gritou algo, e a mulher de casaco de lã veio para ver. percebi que a tv, por um motivo qualquer, estava desligada. samira nunca teve uma tv. a mulher de casaco de lã disse numa voz sem tristeza nem emoção “está agora com deus, seu antônio” e cantou outro hino. não tardou apareceu um médico, que olhou de longe e disse “tá, vou fazer os papéis, era diabético?” e a moça de rosto angelical disse qualquer coisa sobre uma tentativa de assassinato. a tv estava desligada, a mulher de casaco de lã finalmente parou de cantar e cobriu meu rosto com o lençol. finalmente estou completamente só e posso me lembrar de samira, sem o som da tv, sem outras dores.